Astronomia & Astrofísica

Ref. nº 002
URANOMETRIA NOVA
2003.OUT.27

 

Phobos é oco ?

Regina Auxiliadora Atulim*


Na década de 1950, o astrônomo americano Harlow Shapley (1885-1972) detectou uma aceleração de origem desconhecida atuando sobre Phobos, indicando que ele estava, lentamente, se aproximando de Marte. No início da década de 1960, o astrônomo soviético Josif Sammilovich Shklovsky (1916-1985) desenvolveu um modelo para explicar tal aceleração: forças de maré entre Marte e Phobos poderiam causar tal efeito se o satélite fosse muito leve, muito mais leve do que seria possível para um astro, a não ser que ele fosse... oco.

Como era muito pouco provável que um astro oco tivesse se formado em uma órbita tão próxima de Marte (a distância de Phobos a Marte é de cerca de 9.500 km), Shklovsky sugeriu que Phobos poderia ser um satélite artificial colocado em órbita pelos marcianos! Essa idéia acabou sendo distorcida para outra, mais fantástica e irreal: Phobos, um dos satélites naturais de Marte, seria, de fato, oco e, em seu interior, existiria uma civilização avançada, capaz até de realizar viagens espaciais com naves que aportam no interior de uma cratera!

Os satélites foram fotografados pela primeira vez em 1971 (sonda Mariner 9) e, apesar de serem naturais e maciços, se mostraram muito diferentes de Marte: suas superfícies são escuras, repletas de crateras, e, por serem muito pequenos, não são esféricos. Eles se parecem mais com os asteróides que se localizam entre as órbitas de Marte e Júpiter que com satélites naturais como a Lua ou os galileanos de Júpiter. Suas densidades médias foram estimadas em cerca de 2 g/cm³ ( indicando que são de fato muito “leves”, como idealizou Shklovsky ), aproximadamente as mesmas de alguns meteoritos rochosos que se precipitaram sobre a superfície terrestre.

Os meteoritos são os restos da matéria prima que originou os astros do Sistema Solar. Embora existam algumas teorias nas quais os satélites se formaram junto a Marte, as inúmeras diferenças físicas e químicas entre eles indicam que eles foram capturados posteriormente por Marte.

 

* Observatório Céu Austral e professora do Planetário e Escola Municipal de Astrofísica de São Paulo.