nº 020
27 de Setembro de 2006
PLUTÃO:
Ex-planeta ?

Priscila Di Cianni Ferraz de Oliveira *

 

Perturbações na órbita de Urano e Netuno sugeriam a existência de um astro nas suas proximidades. Em 18/02/1930, Clyde William Tombaugh descobriu o que, na época, se pensou ser esse objeto. Situado a distância média de 39,5 UA e orbitando em torno do Sol, o objeto foi considerado como o nono planeta do Sistema Solar. No início pensou-se que ele possuía tamanho muito maior do que de fato ele tem.

Esse novo planeta foi denominado Plutão por sugestão de Venetia Burney, neta do ex-bibliotecário da Biblioteca Bodleiana da Universidade de Oxford. O nome foi aceito por todos, e oficialmente adotado em 01.05.1930. Além de pertencer à mitologia grega, como é praxe, tinha muito significado uma vez que Plutão é o nome pelo qual Hades, irmão de Zeus, era chamado popularmente e nomeá-lo era um exercício de coragem, já que era o Senhor dos ínferos, do mundo dos mortos e falar o seu nome poderia ser interpretado como uma invocação. Plutão é, na verdade, um codinome e significa "o muito rico" - uma alusão ao tamanho de seu reino.

Fig. 1 - Venetia Burney
Fig. 2 - Plutão (HST)

Plutão está tão afastado do Sol, que permanece envolto em trevas, mesmo quando está em seu periélio, o ponto de sua órbita mais próximo do Sol. Desde o início, foi um astro de difícil classificação. Os planetas denominados telúricos, possuem densidades médias entre 3,9 e 5,6 g/cm3 e são predominantemente rochosos (Mercúrio, Vênus, Terra e Marte). Já os chamados planetas jovianos, possuem densidades médias em torno de 1,8 g/cm3 e são predominantemente gasosos. Plutão, no entanto, possui densidade média entre 1,8 e 2,1 g/cm3 e a sua composição é estimada em 70% de rochas e 30% de gelo de água.

O fato dos parâmetros físicos torná-lo de difícil classificação já seria suficiente para considerá-lo um corpo “estranho” ao conjunto dos planetas. Soma-se a isso, uma grande diferença em dois dos seus parâmetros orbitais: a inclinação da órbita (I = 17°) - muito superior à de Mercúrio (7°), a maior inclinação orbital entre os planetas - e a sua excentricidade (e = 0,2482) também bastante pronunciada.

Em 1992, seguindo uma antiga teoria - a da existência de um segundo cinturão de asteróides para além da órbita de Netuno - proposta primeiro por Edgeworth em 1949 e retomada por Kuiper em 1951, os astrônomos David Jewitt e Jane Luu, descobriram os primeiros corpos do que foi chamado de cinturão de Edgworth-Kuiper. Inicialmente chamados de objetos Jewitt-Luu, esses astros recebem hoje a designação de objetos trans-netunianos e são conhecidos atualmente mais de 980 desses corpos.

Entre os objetos trans-netunianos descobertos, um conjunto de corpos de dimensões razoáveis começou a surgir: 28.979 Ixion (2001 KX76) com diâmetro inferior a 820 km, 20.000 Varuna com 900 km de diâmetro, 90.377 Sedna com cerca de 1.300 km de diâmetro entre outros. Até aquele momento, as discrepâncias encontradas nas órbitas de Urano e Netuno, não haviam sido suficientemente explicadas e a cada descobrimento levantava-se a questão se não seria o 10° planeta que havia sido encontrado.

Em 05 de janeiro de 2005, um grupo de cientistas formado por Michael Brown, Chad Trujillo e David Rabinowitz decidiram re-analisar os dados coletados pelo Observatório de Monte Palomar com maior resolução angular de modo a determinar pequenos movimentos e encontraram um corpo celeste que recebeu a designação de 2003 UB313.

Estudos revelaram que o 2003 UB313 é cerca de 20% maior do que Plutão possuindo um diâmetro de 3.000 km e com um satélite. Sua órbita elíptica faz com que se aproxime até 37,8 UA do Sol em sua passagem periélica e se distancie até 97,61 UA, no afélio. A inclinação orbital é de 44° em relação ao plano da eclíptica. Ele é, na verdade, o maior objeto encontrado no Sistema Solar desde 1846 quando Netuno foi descoberto.

Na reunião realizada em 13 de setembro de 2006, entre o WGPSN ( Working Group for Planetary System Nomenclature ) e o CSBN ( Committee for Small Body Nomenclature ), atribuiram-se as designações definitivas: 136.199 Eris e 136.199 Eris I (Dysnomia) para o objeto 2003 UB313 e seu satélite. Apropriadamente, as comissões da IAU acataram a sugestão dos descobridores, uma vez que Eris é a deusa da discórdia e companheira de Marte. Dysnomia é sua filha e representa o espírito da indisciplina e da anarquia.

Na semana anterior ( 07 de setembro de 2006 ), Plutão recebeu a designação 134.340 Plutão e seus satélites, 134.340 I (Caronte), 134.340 II (Nix) e 134.340 III (Hydra).

Fig. 3 - O Sol, Caronte e Nix, vistos a partir da superfície de Plutão.

O achado de um objeto com as dimensões de 136.199 Eris provocou um debate acirrado. Se Plutão continuasse sendo considerado um planeta, então, um corpo maior do que ele e esférico, deveria, também, ser classificado como tal, ou então, Plutão deveria ser considerado como um objeto pertencente ao Cinturão de Edgeworth-Kuiper.

Na 26ª Assembléia Geral da União Astronômica Internacional ( IAU ) realizada em Praga na República Tcheca, foi primeiro apresentada a proposta de se continuar considerando Plutão como planeta e acrescentar Caronte, Ceres, Sedna e Eris à categoria de planetas. A proposição não foi aprovada pelos astrônomos.

A decisão tomada por cerca de 2.000 membros de 75 países e anunciada em 24 de agosto de 2006, foi a de estabelecer 3 categorias:

(a) Planetas Clássicos: Mercúrio, Vênus, Terra, Marte, Júpiter, Saturno, Urano e Netuno;

(b) Planetas Anões: 134.340 Plutão, 136.199 Eris e outros e,

(c) Os asteróides.

Para que um astro seja classificado como planeta as seguintes características são necessárias:

[1] orbitar em torno de uma estrela;

[2] ter massa suficiente para ter gravidade própria e assumir uma forma arredondada, e

[3] ser dominante na órbita.

Essa última norma foi a que desclassificou Plutão como planeta.

A decisão da IAU está sendo contestada por um grupo de 300 cientistas liderados por Alan Stern, astrônomo do Southwest Research Institute em Boulder – Colorado. Segundo Stern, a decisão foi motivada mais por questões políticas do que científicas.

De qualquer maneira, por enquanto, Plutão está fora da lista dos planetas. Na próxima Assembléia Geral da IAU, que será realizada em 2009 no Rio de Janeiro será rediscutida a resolução que excluiu Plutão da lista dos planetas clássicos.

 

Produção, autores e contatos

Irineu Gomes Varella

Astrônomo. Diretor do Planetário e Escola
Municipal de Astrofísica de São Paulo,
no período de 1980 a 2002.

* Priscila D. C. F. de Oliveira

Coordenadora do Centro de Documentação Técnica e Científica em Astronomia do Planetário e
Escola Municipal de Astrofísica de S Paulo.

Ultima atualização: 22 de outubro de 2006
Web Designer: Irineu Gomes Varella


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