Mitos e Lendas do Céu 

 
Deuses e Planetas
Priscila Di Cianni Ferraz de Oliveira *
 
 

Todos sabem que os principais astros do Sistema Solar são designados com os nomes de deuses das culturas grega, romana, inuit, nórdica, etc. Entretanto, quando dizemos, por exemplo, que o planeta Júpiter é o representante do pai dos deuses, não estamos afirmando que para os antigos o deus Júpiter fosse o planeta fisicamente. É preciso distingüir de forma clara a representação sacralizada de um astro ou de uma fonte ou de um rio, da divindade propriamente dita.

Ao atribuir um caráter divinatório a um objeto físico, os povos antigos não pretendiam nada de diferente do que é feito nos dias de hoje com os símbolos sagrados como a Cruz ou a Kaaba.

Quando dizemos que Júpiter (planeta) é um deus estamos afirmando que esse é um símbolo do poder desse deus. As condições que levaram os antigos (não só os gregos e romanos) a associar a este ou aquele astro a uma divindade específica, são principalmente suas características. Planeta significa astro andarilho. Os povos antigos desconheciam a natureza desses astros. O que eles observavam era o brilho, o caminho que eles percorriam e o seu período sideral. Para eles os planetas tinham a mesma natureza das estrelas, porém caminhavam entre elas, como se passeassem pelo céu observando e mantendo a ordem estabelecida no período da criação.

Júpiter, por exemplo, é um astro muito brilhante e razoavelmente estável, possui um período sideral de quase 12 anos. Já Saturno, mais distante, é menos brilhante e possui um período sideral de 29,5 anos, lento demais para ser um ordenador. Assim Saturno (Cronos) tornou-se o pai de Júpiter. Mais distante e menor é, também, menos brilhante, característica que o torna “o velho”.

Vênus, lindo e brilhante (é o segundo astro mais brilhante do céu noturno, superado apenas pela Lua) é inconstante, pois às vezes surge pela manhã, e às vezes à tarde. Tornou-se, assim, a bela e sedutora deusa do amor e senhora da luxúria.

Marte, vermelho como o sangue derramado nas guerras, tornou-se o símbolo do Deus da Guerra. Mercúrio, com seu rápido movimento, simboliza o mensageiro dos deuses, veloz e furtivo. A Lua, com suas fases, é a senhora absoluta das mulheres e da magia, da morte e do renascimento. O Sol, que tudo clareia eliminando as trevas, é Helios, e mais tarde, Apolo, deuses invocados nos juramentos, pois deles nada pode ser escondido.

O signo e seu significado não podem, portanto, ser confundidos com a entidade a eles atribuída, da mesma forma que uma cruz é apenas uma cruz e seu significado como símbolo de Jesus é exclusivamente uma visão cristã. Ninguém imagina que ao queimar, quebrar ou destruir de qualquer forma a cruz, estaremos destruindo Jesus. É um erro comum, também, supor que os deuses morem em seus planetas. Os deuses gregos moram no Olimpo e, assim como a águia de Zeus, os planetas são, antes de tudo, suas representações.

A sacralização da natureza, sejam os planetas ou as suas manifestações (chuva, trovão, vento...) é comum a várias culturas antigas e é possível encontrar até os dias de hoje, em povos como os aborígenes, algumas tribos africanas, índios e mesmo entre vários grupos de cultura popular. Em algumas regiões do Brasil, a crença em Iara, no boto, no curupira convivem com os santos e com o deus cristão. Entre os árabes, a existência dos Djins ainda é crença comum.

A Igreja Católica transformou muitas das deusas das nascentes de água em santas, e as águas sacralizadas pelos antigos em milagrosas por interferência destas. Santos católicos também respondem por manifestações da natureza, sendo supostamente capazes de interferir em sua força, como Santa Bárbara, invocada durante as tempestades.

Concluindo, é importante não confundir o objeto sagrado, seja ele um planeta, uma fonte ou o vento, com o que ele representa. Esse processo de sacralização do profano é chamado de hierofania.

 

 
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Produção, autores e contatos

Irineu Gomes Varella

Astrônomo. Diretor do Planetário do Ibirapuera
e da Escola Municipal de Astrofísica
de São Paulo, no período de 1980 a 2002.

* Priscila D. C. F. de Oliveira

Coordenadora do Centro de Documentação Técnica e Científica em Astronomia do Planetário e
Escola Municipal de Astrofísica de S Paulo.

Web Designer: Irineu Gomes Varella
 

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