Histórias
da Astronomia
Produção: Irineu G. Varella & Priscila D.C.F. de Oliveira
Nº 004 - 05 de Dezembro de 2003

 
A PEDRA SAGRADA DE MACHU PICCHU
Carlos Henrique Amaral de Andrade*
 

Uma das mais fascinantes obras da civilização incaica começa agora a ser entendida. Trata-se da famosa pedra de Intihuatana, localizada na cidade mística de Machu Picchu, nos Andes peruanos. A rocha, tida por muitos como poderoso centro de energia, é cultuada até hoje, mesmo passado séculos de abandono. Místicos, esotéricos e curiosos de todo o mundo visitam Machu Picchu, e como lembrança ou pequeno souvenir trazem na bagagem dezenas de fotografias deste local sagrado.

Para os incas, no entanto, ao contrário do que é dito na maioria dos livros de História, esta pedra não era uma simples pedra, muito menos um relógio solar. Devido ao íntimo contato com o céu, o povo que um dia ali viveu necessitava, e muito, das observações dos astros, para sua própria sobrevivência. Como eram auto-suficientes em termos de alimentação, necessitavam conhecer a melhor época para o plantio e para a colheita, bem como era necessário também conhecer os pontos cardeais para edificarem suas construções. Noções importantíssimas de Geometria e Trigonometria eram adquiridas pelos incas através de profundos estudos do céu, sua única tela cinematográfica. Por outro lado, por serem politeístas, tinham nos astros seus deuses. Criaram inúmeras constelações, construíram calendários, ergueram monumentos grandiosos, tudo com a constante observação do céu. É sabido hoje que essa civilização possuía uma profunda ligação com o além, no entanto, essa ligação, após sucessivos trabalhos de pesquisa, mostrou-se muito maior e mais complexa do que se imaginava até então...

 
QUAL A VERDADEIRA FUNÇÃO DA INTIHUATANA ?
 

Apenas uma rocha lavrada num único bloco dominando o terraço mais alto de Machu Picchu. Seu tamanho pode às vezes decepcionar, mas suas formas, sua posição, sua energia.... certamente chama a atenção de todos. Tal pedra parece dominar todo o império. Império esse estendido não só pelo Peru, mas também Bolívia, Chile e partes da Argentina e Equador. Esta é a Intihuatana, palavra quéchua que traduzida a grossos modos, nos dá uma idéia bem clara do que esta pedra representava para aquele povo. Inti provém de Sol, o Sol dos incas, enquanto que huatana descende da palavra huata, que significa amarrar, prender mediante cordas. Seria então a Intihuatana O LUGAR ONDE SE AMARRA O SOL ? Por que ? A resposta é ao mesmo tempo simples e fascinante: todos sabem que nosso planeta possui um eixo de rotação inclinado em relação ao Sol aproximadamente 23 graus. Tal inclinação faz com que fenômenos interessantes ocorram na Terra. Grande parte desses fenômenos só foram entendidos e explicados mediante estudos e observações. Os incas, logicamente, entenderam muitos desses fenômenos, e por assim dizer, aproveitaram desse conhecimento para se perpetuarem.

Como já dito anteriormente, necessitavam conhecer a melhor época para o plantio e para a colheita. Através da Intihuatana, é ainda hoje, perfeitamente possível identificar as estações do ano. Como ? Intihuatana está posicionada perfeitamente em função dos pontos cardeais. Esses pontos não são os mesmos identificados pela bússola, já que esta nos mostra o Norte e o Sul magnético e não o geográfico. Os incas também já sabiam disso. Em outros sítios arqueológicos teremos a comprovação de que conheciam muito bem várias noções de Astronomia e Geometria.

Pois bem, devido à inclinação do eixo de nosso planeta, aparentemente, às vezes, o Sol parece se dirigir, ora ao hemisfério Norte, ora ao hemisfério Sul. Quando o astro rei se declina para o lado Norte, temos então aqui no Sul a estação do Inverno, já que nesse momento maior concentração de calor e luz estará acontecendo no Norte. Passados então cerca de seis meses, as posições se invertem: devido ao movimento de rotação da Terra, o Sol, aparentemente, vem para o Sul trazendo-nos calor e luz, enquanto que ao Norte resta apenas frio, ou seja, o Inverno...

Os incas não conheciam esses movimentos, motivo pelo qual tiveram a idéia de amarrarem o Sol para que, quando o mesmo resolvesse se afastar da Terra, mediante cordas pudessem trazê-lo de volta. E aí entra em cena a pedra de Intihuatana. Segundo nos conta a tradição, o Sol estava amarrado à ela através de forças ocultas , permitindo assim aos incas, puxá-la de volta tão logo começasse a fazer frio...

No entanto, o que mais nos chama a atenção, são as profundas e intrigantes construções, quase todas, realizadas segundo técnicas de Engenharia e Arquitetura ainda hoje não explicadas. A Intihuatana, por exemplo, está trabalhada com tal precisão da mesma forma que se corta um bolo... Mas, é granito !

Tudo indica que as verdadeiras funções da pedra de Intihuatana estão ligadas diretamente ao estudo das estações do ano, suas ligações com o mundo celestial, com as melhores épocas para o plantio e para a colheita, bem como que com a construção da própria cidade de Machu Picchu. Nesta cidade, inclusive, não obstante, há muito próximo à Intihuatana, um verdadeiro relógio solar, tipo equatorial, autêntica prova da inteligência incaica.

Como porém a maioria dos livros de História e Geografia não trazem menção de tal aparelho, atribuindo suas utilidades à Intihuatana ? Em sítios arqueológicos não muito distantes de Machu Picchu, é possível encontrar outras inúmeras pedras, verdadeiros monumentos, com a única e exclusiva finalidade de entender conceitos básicos da natureza. Em Ollantaytambo, por exemplo, uma gigantesca montanha é até hoje usada para a determinação das estações do ano. Se essas pedras ( monolitos por que não ? ) são realmente centros de energia, os quais atraem hoje milhares de turistas de todo o mundo, nisto a ciência nada opina a respeito, deixando para os místicos e esotéricos esta finalidade.

 

* Astrônomo. Projeto INTI e Diretor do Observatório Municipal de Americana (OMA).


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Produção e Contatos

Irineu Gomes Varella

Astrônomo. Diretor do Planetário do Ibirapuera
e da Escola Municipal de Astrofísica
de São Paulo, no período de 1980 a 2002.

Priscila D. C. F. de Oliveira

Coordenadora do Centro de Documentação Técnica e Científica em Astronomia do Planetário e
Escola Municipal de Astrofísica de S Paulo.

Web Designer: Irineu Gomes Varella
Ultima revisão: 18 de Julho de 2009

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