Histórias
da Astronomia
Produção: Irineu G. Varella & Priscila D.C.F. de Oliveira
Nº 005 - 05 de Março de 2004

 
O VALE SAGRADO DOS INCAS
Carlos H. A. Andrade *; Fernando e Edgar Salazar
 

À curta distância da cidade de Cuzco se encontra um dos vales de maior riqueza paisagística e cultural do Peru. Foi formado há milhares de anos pelas correntezas do rio Vilcanota, o mesmo que no passado era chamado de Willkañuta (casa do Sol) ou Willcamayu (rio sagrado). A área, denominada Vale Sagrado dos Incas, se prolonga por mais de 100 quilômetros (sendo seus extremos as cidades de Pisac e Machu Picchu), e possui numerosos povos (entre eles Ollantaytambo) e impressionantes centros administrativos que testemunham sua milenar ocupação.

Se encontra à uma altura média de 2800 metros sobre o nível do mar, e apresenta condições excepcionais, tais como um clima benéfico (18º C de temperatura média anual), rica flora e fauna, terra fértil e inumeráveis riachos que, nascendo das cordilheiras nevadas que o rodeiam, se precipitam em cachoeiras por entre os bosques nativos mais altos do mundo (4200 metros de altitude), provendo-o de abundante água e alimentando o rio sagrado.

 
A VIA LÁCTEA E O VALE SAGRADO DOS INCAS
 

A Via Láctea é uma nuvem esbranquiçada e difusa que atravessa de forma oblíqua a esfera celeste e engloba muitas constelações. Dentre elas podemos citar Órion, o Escorpião e o Cruzeiro do Sul. É formada por milhões de estrelas e nuvens escuras de poeira e gás que podemos observar em noites de céu limpo. Se a Terra fosse transparente, poderíamos constatar que ela nos rodeia por completo.

Conhecida no mundo andino como Mayu ou rio celestial, serviu aos Incas como eixo de orientação ritual. O cronista Cristóbal de Molina disse que os sacerdotes Incas realizavam durante o Solstício de Inverno uma peregrinação cerimonial anual em função da Via Láctea: partiam de Cuzco em direção Sudeste, seguindo o movimento aparente da Via Láctea, até um lugar hoje denominado La Raya (onde nasce o rio Vilcanota), e onde, segundo a mitologia Inca, nascia o Sol.

Deste lugar regressavam à Cuzco, dirigindo-se à Noroeste, mas agora seguindo a direção do “rio sagrado” (Vilcanota), que também flui de Sudeste à Noroeste. É nesta peregrinação ritual que o rio celestial (Mayu) se relacionava com o rio terrestre (Vilcanota), já que na antigüidade existia a idéia de que tudo que fosse sagrado sobre a Terra possuía sempre um reflexo no céu. Atualmente, nas comunidades agrícolas, acredita-se que as forças cósmicas interferem substancialmente na vida diária.

O Mayu não foi apenas um eixo de orientação importante, mas sim um plano de referência para o entendimento do clima terrestre. Todo o conhecimento da época era proveniente das constelações, e existiam três classes delas: as “constelações brilhantes”, formadas por um conjunto de estrelas unidas imaginariamente para formar uma determinada figura, as “constelações escuras”, formadas por manchas escuras da Via Láctea (conhecidas atualmente como nebulosas), e as “constelações mistas”, uma mistura de ambas. As constelações escuras se encontram na região do rio celestial, ou Mayu, onde a densidade e o brilho maior desta região fazem com que as manchas escuras da Galáxia pareçam sombras de enormes silhuetas, geralmente de animais, os quais, no pensamento andino estavam encarregados de gerar fertilidade e abundância na Terra.

Devido à tudo isso, e em função dessas idéias, foram edificados, em todo o Vale Sagrado dos Incas, enormes construções que delimitaram espaços rituais, nos quais se recriou em suas formas respectivas as principais constelações andinas (Árvore, Lhama, Condor, Perdiz, Pontes, etc.), como se o vale e seu rio fossem reflexos, um do outro (ver figura). Logo, o Vale Sagrado dos Incas, não é apenas um nome, uma frase, ou muito menos um lugar comum, normal. È na verdade um sentimento, uma maneira de se situar no mundo, uma forma de compreender a vida, um conceito.

A arquitetura do Vale, tal qual sua simetria, parece nos revelar que o mesmo tinha a exclusiva função de servir de espelho da Via Láctea para os Incas. Na figura abaixo podemos identificar a união do rio com o mar, e como (através da imaginação) nasce a Via Láctea para projetar-se no céu, e unir-se novamente com a Terra em seu extremo superior, dando-nos a idéia da existência de um todo como um ciclo contínuo.

 
Fig. 1- Representação cosmogônica do Vale Sagrado dos Incas e sua relação com a Via Láctea. Note-se como as constelações são refletidas no vale.
 

No passado, durante o Equinócio de Primavera (23 de Setembro) se realizava um ritual denominado Mayucati, no qual os Incas entregavam oferendas ao rio Huatanay em Cuzco, para que suas águas, ao unir-se com as do rio Vilcanota, as levassem até Ollantaytambo. Atualmente entregam oferendas ao rio Vilcanota ou Willcamayu (rio sagrado), pois existe a crença de seus desejos são realizados através da chuva.


* Astrônomo. Coordenador do Projeto INTI e Diretor do Observatório Municipal de Americana (OMA).

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SOBRE ASTRONOMIA INCA NA WEB

Projeto INTI -- Astronomia dos Incas - Página coordenada pelo Prof. Carlos H. A. de Andrade. Contém inúmeras informações sobre Astronomia Inca e sobre excursões a diversos locais.

 
Produção, autores e contatos

Irineu Gomes Varella

Astrônomo. Diretor do Planetário do Ibirapuera
e da Escola Municipal de Astrofísica
de São Paulo, no período de 1980 a 2002.

Priscila D. C. F. de Oliveira

Coordenadora do Centro de Documentação Técnica e Científica em Astronomia do Planetário e
Escola Municipal de Astrofísica de S Paulo.

Web Designer: Irineu Gomes Varella
Ultima revisão: 18 de Julho de 2009

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