Histórias
da Astronomia
Produção: Irineu G. Varella & Priscila D.C.F. de Oliveira

Nº 011 - 05 de Março de 2005


 
A ORIGEM DA SEMANA
Priscila Di Cianni Ferraz de Oliveira *
 

A partir de um determinado grau de evolução de uma civilização, a necessidade de dividir o tempo em períodos mais curto do que os meses, geralmente ditados pelas lunações, tornou-se preemente. Criou-se, então, um período mais adequado à economia e às festas religiosas, surgindo nas diversas civilizações uma divisão de tempo denominada semana.

Para os povos da América pré-colombiana encontramos, entre os habitantes do México, uma semana de 5 dias, 1/4 do seu mês de 20 dias; entre os povos do Peru incaico, 7 dias. No período da República Romana essa divisão era de 8 dias. Para os egípcios 10 dias, correspondendo a 1/3 de seu mês e para os hebreus e os babilônios de 7 dias, determinada pelas fases da Lua.

Uma lunação dura 29d 12h 44m. Um quarto desse valor é 7d 9h 11m, tornando lógica a escolha do número inteiro 7 para a quantidade de dias da semana, o que provoca um ligeiro descompasso entre a duração da semana e o intervalo entre as fases. A mais antiga forma de semana (a da Babilônia) era contada a partir do novilúnio que determinava o início do mês e assim sucessivamente 7, 14, 21 e 28 dias, resultando que para o resurgimento da Lua nova ficavam faltando 1 ou 2 dias.

Essa discrepância e a dificuldade de se determinar com precisão o novilúnio ( condições atmosféricas etc..) tornou natural que se abandonasse a medição pela Lua e se instituísse uma semana regular de 7 dias completamente independente, como a que está em uso até os dias de hoje, facilitando a marcação de feiras, rituais e celebrações de qualquer tipo, em um período fixo.

A instituição da semana de 7 dias, sem ligação com os fenômenos celestes, pode ser genuinamente hebraica ou pode ser que tenha sido absorvida por esse povo durante o período de dominação babilônica. Não há maneira de sabermos. No entanto, é com certeza hebraico o sábado como dia de repouso obrigatório e isso encontra-se registrado nos mais antigos documentos da Lei. Com a dispersão do povo hebreu, esse ciclo prático foi adotado pelos caldeus e mais tarde pelos cristãos e pelos islâmicos, sendo hoje em dia, adotado no mundo todo. Em uso há quase 3.000 anos, não é provável que venha a ser substituído no futuro.

Não há registros que os hebreus tenham criado nomes especiais para qualquer dia da semana, exceto o sábado que era considerado o último dos 7 dias e deveria ser dedicado ao repouso, assim como fez o Senhor quando da criação. Não há indicação, nem no Antigo nem no Novo Testamento, dessa prática. Parece que se referiam aos dias como: o primeiro dia depois do sábado, o segundo dia depois do sábado até o 6º dia, ao qual se referiam como o dia anterior ao sábado.

Há muito se acredita que a semana originou-se nos 7 astros visíveis a olho nu que percorrem o zodíaco: o Sol, a Lua e os cinco planetas conhecidos na antiguidade: Mercúrio, Vênus, Marte, Júpiter, Saturno. É importante notarmos que o conhecimento do movimento dos planetas pela esfera celeste, requer cuidadosos estudos e observações, e não parece que os hebreus tivessem esse conhecimento. Os babilônicos, especialmente no período de Nabucodonosor, eram de fato grandes estudiosos do céu e, no entanto, sua semana era regulada pelos "quartos" da Lua.

As relações pacíficas ou guerreiras dos judeus com Roma, tiveram o mérito de dar a conhecer em Roma, a semana judaica e o sábado. Horácio, Ovídio e outros falaram do sábado como uma coisa notável e Giuseppe Flávio escreveu não haver nenhuma cidade, grega ou não, que não tivesse conhecimento do hábito judaico de celebrar o sábado. Na mesma época começou-se atribuir, aos vários dias da semana, os nomes das divindades pagãs que hoje estão em uso, com poucas alterações, por todos os povos neo-latinos (exceto os de lingua portuguesa), bem como, pelos de origem germânica, modificado segundo a mitologia nórdica (Tabela 1).

A origem astronômica desses nomes é intimamente ligada à ordem das sete esferas planetárias adotada por Ptolomeu e depois pelos astronômos e astrológos até os tempos de Copérnico. Tal ordem, começando com o planeta "mais alto" e descendo até o "mais baixo", é: Saturno, Júpiter, Marte, Sol, Vênus, Mercúrio e Lua. A primeira notícia que se tem de tal disposição das órbitas planetárias, não é muito anterior ao segundo século antes da nossa era.

Não é provável que a aplicação dos nomes de divindades gregas seja muito antiga. Os babilônicos possuiam uma estrela que, lida corretamente, mostrava a sequência exata dos dias e das horas no decorrer da semana. Os nomes relacionados com a estrela que nos chegaram são romanos e é provável que tenha havido uma substituição dos deuses mesopotâmicos pelos deuses romanos, conservando-se o caráter do deus. Por exemplo: Vênus seria Ishtar, Marte seria Eriskingal etc.


TABELA 1 - OS DIAS DA SEMANA EM VÁRIAS LÍNGUAS

ASTRO SOL LUA MARTE MERCÚRIO JÚPITER VÊNUS SATURNO

PORTUGUÊS Domingo Seg.-feira Terça-feira Quarta-feira Quinta-feira Sexta-feira Sábado
LATIM Dies solis Lunæ dies Dies martis Dies mercurii Dies jovis Dies veneris Dies saturni
FRANCÊS Dimanche Lundi Mardi Mercredi Jeudi Vendredi Samedi
ITALIANO Domenica Lunedi Martedi Mercoledi Giovedi Venerdi Sabato
ESPANHOL Domingo Lunes Martes Miércoles Jueves Viernes Sábado
INGLÊS Sunday Monday Tuesday Wednesday Thursday Friday Saturday
ALEMÃO Sonntag Montag Dienstag Mittwoch Donnerstag Freitag Sonnabend

No idioma japonês, encontramos referências ao Sol, à Lua e aos planetas que são designados pelos nomes dos cinco elementos básicos da natureza que os representam:

DOMINGO
SEGUNDA
TERÇA
QUARTA
QUINTA
SEXTA
SÁBADO
Nitchi
Getsu
Kayô
Suyô
Mokuyô
Kin
Do
Sol
Lua
Fogo
Água
Madeira
Ouro
Terra (solo)


A SEMANA BABILÔNICA

Nos sete vértices da estrela babilônica, estão os astros regentes das horas do dia. Cada hora é regida por um astro. A seqüência dos astros regentes é anti-horária como se mostra na figura abaixo: Sol - Vênus - Mercúrio - Lua - Saturno - Júpiter - Marte - Sol - Vênus ... Se considerarmos a primeira hora do dia ( a que tem início à 0h e término à 1h ) como sendo a hora regida pelo Sol, a segunda ( com início à 1h e término às 2h ) será regida por Vênus, a terceira por Mercúrio, a quarta pela Lua e assim sucessivamente ( veja toda a seqüência na Tabela 2). A seqüência se repete até esgotarem-se as horas do dia.

A primeira hora do dia seguinte será regida pelo astro seguinte ao que regeu a última hora do dia anterior e a seqüência continua até esgotarem-se os dias da semana. Cada dia da semana é designado pelo astro regente de sua primeira hora ( 0 h ). Assim, o dia que tem sua primeira hora regida pelo Sol é designado em homenagem ao Sol. O que tem a sua primeira hora regida por Saturno é designado em homenagem a Saturno e assim por diante. A designação dos dias da semana segue, então, a ordem da ligação dos vértices da estrela, conforme representado na fig.1: Sol - Lua - Marte - Mercúrio - Júpiter - Vênus - Saturno - Sol. É por isso que em muitas línguas, o domingo é designado em homenagem ao Sol, a segunda-feira à Lua, terça em homenagem a Marte etc.

Fig.1 - A seqüência dos dias na semana babilônica: partindo-se do Sol ( domingo ) e seguindo-se os raios da estrela, teremos a seqüência: Lua ( 2a. feira ), Marte ( 3a. feira ), Mercúrio ( 4a. feira ), Júpiter ( 5a. feira), Vênus ( 6a. feira) e Saturno ( sábado).


 

TABELA 2 - SUCESSÃO DAS HORAS E ASTROS REGENTES

 
DOMINGO
00h
Sol  
06h
Marte  
12h
Júpiter  
18h
Saturno
 
01h
Vênus  
07h
Sol  
13h
Marte  
19h
Júpiter
 
02h
Mercúrio  
08h
Vênus  
14h
Sol  
20h
Marte
 
03h
Lua  
09h
Mercúrio  
15h
Vênus  
21h
Sol
 
04h
Saturno  
10h
Lua  
16h
Mercúrio  
22h
Vênus
 
05h
Júpiter  
11h
Saturno  
17h
Lua  
23h
Mercúrio
 
   
   
   
 
SEGUNDA
00h
Lua  
06h
Mercúrio  
12h
Vênus  
18h
Sol
 
01h
Saturno  
07h
Lua  
13h
Mercúrio  
19h
Vênus
 
02h
Júpiter  
08h
Saturno  
14h
Lua  
20h
Mercúrio
 
03h
Marte  
09h
Júpiter  
15h
Saturno  
21h
Lua
 
04h
Sol  
10h
Marte  
16h
Júpiter  
22h
Saturno
 
05h
Vênus  
11h
Sol  
17h
Marte  
23h
Júpiter
                       
TERÇA
00h
Marte                  
  ... e assim sucessivamente.
 

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Produção, autores e contatos

Irineu Gomes Varella

Astrônomo. Diretor do Planetário do Ibirapuera
e da Escola Municipal de Astrofísica
de São Paulo, no período de 1980 a 2002.

Priscila D. C. F. de Oliveira

Coordenadora do Centro de Documentação Técnica e Científica em Astronomia do Planetário e
Escola Municipal de Astrofísica de S Paulo.

Web Designer: Irineu Gomes Varella
Ultima revisão: 19 de Novembro de 2005

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