Histórias
da Astronomia
Produção: Irineu G. Varella & Priscila D.C.F. de Oliveira
Nº 012 - 25 de Junho de 2005

 
A SUPERNOVA DE 1054
Priscila Di Cianni Ferraz de Oliveira *
 

Um dos fatos mais impressionantes que encontramos nos relatos dos antigos astrônomos é a repentina aparição de uma estrela de forte brilho no céu. Visível até mesmo durante o dia, a "estrela visitante", como foi chamada, pôde ser observada por mais de um ano antes de desaparecer. O que teria sido essa súbita aparição ?

* * *

A Nebulosa do Caranguejo, apesar do nome, encontra-se localizada na constelação do Touro a 67' a NW da estrela Zeta Tauri, que marca a extremidade do chifre sul do Touro.

Ela foi descoberta por John Bevis, físico e astrônomo amador inglês em 1731. Independentemente, em 1758, Charles Messier, enquanto observava o cometa de 1758 descobriu o que ele descreveu como "uma nebulosidade próxima do corno sul do Touro… não contém estrelas, é uma luz esbranquiçada e alongada como a chama de uma vela".

Foi essa descoberta que motivou Messier a compilar um catálogo de nebulosas e aglomerados, para que outros observadores não viessem a confundir esses objetos com cometas. A Nebulosa do Caranguejo é o objeto nº 1 do catálogo Messier e designado por M1.

Muitos outros astrônomos observaram e estudaram a M1. Ela é provavelmente a nebulosa mais bem documentada. Fotografias obtidas no Observatório Mt. Wilson por J. C. Duncan revelaram que ela se expande com taxa média de 0,2" por ano, com pequenas variações em algumas partes da nebulosa.

Considerando-se o valor da distância obtida para a nebulosa, essa taxa corresponde a uma velocidade de expansão de 960 km/s, ou ao redor de 83 milhões de quilômetros por dia. Esta é uma das velocidades mais altas da Galáxia e parece indicar que a nebulosa, que tem agora 6 anos-luz de extensão, começou em uma colossal explosão há séculos atrás, certamente na explosão de uma supernova.

Em 1942, o Dr. Walter Baade calculou a idade provável da nebulosa em 760 anos. Estimativas mais recentes elevam esse valor para 900 anos.

Nas Crônicas da China medieval, relata-se um acontecimento intrigante sobre "uma estrela visitante" que apareceu próxima a estrela Zeta Tauri em julho de 1054. De acordo com a tradução de J. J. Duyvendak (1942) no texto, contido no Sung Shi ou Anais da Dinastia Sung, narra-se o seguinte:

"…no primeiro ano do período Chih-ho, na 5ª lua, no dia chi-ch'ou, uma estrela visitante apareceu aproximadamente algumas polegadas a sudeste de Tien-Kuan….Depois de mais de um ano ela gradualmente tornou-se invisível…"

A data precisa de acordo com cálculos, é 4 de julho de 1054, e a posição "algumas polegadas a sudeste de Tien Kuan" corresponde ao sudeste da estrela Zeta Tauri. Posteriormente aparece uma referência no Sung hui-yao, compilado por Chang Te-hsiang, ajudando-nos a obter mais informações sobre o objeto que apareceu:

"…durante o terceiro mês do primeiro ano do período do reinado de Chia-yu (19 de março - 17 abril de 1056) o diretor do observatório astronômico disse. "a estrela visitante tornou-se invisível, o que é um presságio da partida da visitante".

Originalmente, durante o 5º mês do 1º ano do período do reinado de Chi-ho, ela aparecia de manhã à leste guardando T'ien-Kuan. Ela foi visível durante o dia como Vênus, com raios apontando para todas as quatro direções. Sua cor era branco avermelhado…Ela foi vista de modo geral por 23 dias, como objeto diurno.

Não se conhecem registros na Europa da aparição dessa estrela nova e o Prof. Fred Hoyle sugeriu que isso se deve ao fato da religião, naquela época, ser extremamente rígida ( para a Igreja, o Universo estava completo e não era sujeito a modificações ) e assim os historiadores medievais foram forçados a ignorar o evento.

Foram também encontradas imagens pictográficas em ruinas no norte do Arizona, uma na caverna da Mesa Branca e outra em paredes do Canyon Navajo. Ambas as pictografias mostram a lua com uma grande estrela próxima e abaixo dela.

Simulações com o uso de computadores revelaram que o crescente lunar estava localizado justamente a 2º ao norte da posição da Nebulosa do Caranguejo na manhã de 5 de julho de 1054. Se as crônicas chinesas estão corretas, esta foi a manhã seguinte ao aparecimento da nova e, com certeza, sua presença constituiu-se em um espetáculo impressionante com a Lua.


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Produção, autores e contatos

Irineu Gomes Varella

Astrônomo. Diretor do Planetário do Ibirapuera
e da Escola Municipal de Astrofísica
de São Paulo, no período de 1980 a 2002.

Priscila D. C. F. de Oliveira

Coordenadora do Centro de Documentação Técnica e Científica em Astronomia do Planetário e
Escola Municipal de Astrofísica de S Paulo.

Web Designer: Irineu Gomes Varella
Ultima revisão: 19 de Novembro de 2005

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