Histórias
da Astronomia
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Nº 024

04 de Julho de 2006

 
CAMILLE FLAMMARION
Nelson Alberto Soares Travnik *
 

O mundo celebrou em 2005 o “Ano Internacional da Física” reverenciando Albert Einstein e os 100 anos da sua Teoria da Relatividade. Este também foi um ano marcado pelo centenário da morte do precursor da ficção científica, o francês Jules Gabriel Verne (1828-1905) e por justas homenagens a um dos maiores divulgadores da Astronomia de todos os tempos, o também francês Camille Flammarion.

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Nascido em Montigny-le-Roi em 26 de fevereiro de 1842, e falecido em Juvisy no mesmo país, a 03 de junho de 1925, Flammarion foi um homem cujas obras encheram de luzes o século XIX. Era o mais velho de uma família de quatro filhos e desde o nascimento, seus pais lhe reservaram um ‘destino intelectual’, por isso, puseram-no a aprender latim para que seguisse a carreira eclesiástica. Foi nesta época que o padre Mirbel falando da beleza da ciência e da grandeza da Astronomia mal sabia que um de seus auxiliares lhe bebia as palavras.

Esse auxiliar era Camille Flammarion, aquele que iria ilustrar a letra e a significação galo-romana do seu nome Flammarion: ”aquele que leva a luz”. É neste período, com a idade de 11 anos que a paixão pela observação do céu se inicia ao ver um belo cometa. Com apenas 16 anos escreveu um livro de 500 páginas intitulado “Cosmogonia Universal – Estudo do Mundo Primitivo”. Com o livro na mão ganha coragem e apresenta-se no Observatório de Paris dirigido por Urbain Le Verrier, o célebre descobridor do planeta Netuno utilizando apenas o cálculo.

Após ser entrevistado e avaliado é aceito como aluno-astrônomo. Sua decepção, contudo é grande com as tarefas do Observatório onde o diretor valorizava somente trabalhos de ordem teórica. É nesta época que escreve o livro “Pluralidade dos Mundos Habitados”, provocando um verdadeiro impacto no meio científico e filosófico. O livro, publicado em 1862, provoca a ira de Le Verrier que com a frase “o senhor não é um astrônomo, é um poeta!” demite o jovem Camille Flammarion. A acusação não era infundada.

Realmente aquele jovem era um autêntico poeta do céu, mas também, um homem de ciência como viria provar mais tarde. A publicação do livro, entretanto, provoca admiração de Victor Hugo, do imperador Napoleão III e Flammarion é então convidado a colaborar em vários jornais. Em junho de 1863 tornou-se redator científico da revista ‘Cosmos’. Em 1876, a convite do próprio Le Verrier, retorna ao Observatório de Paris iniciando então um período extremamente fértil.

Em 1878, publica um catálogo de estrelas duplas visuais que foi, por muitos anos, considerado o melhor do mundo. Em 1896 descobriu o chamado “Ciclo de Flammarion”, período de 54 anos no qual se repetem nas mesmas regiões da Terra os eclipses do Sol. Em 1882 funda a revista L’Astronomie que é editada até hoje e que provocaria o surgimento do Boletim Astronômico do Observatório de Paris. Seus livros repletos de ciência, filosofia e poesia granjeiam a admiração em todo o mundo. É nesta época que recebe de um septuagenário de Bordeaux, a doação de uma imensa propriedade onde após dois anos de obras, instala o seu Observatório de Juvisy.

Uma das primeiras personalidades a visitá-lo foi o Imperador do Brasil, D.Pedro II que em 29 de julho de 1887 inaugura, com uma observação em Vênus, a grande luneta de 25 cm de diâmetro. Nesta ocasião nosso Imperador plantou um pinheiro nos jardins de Juvisy e concedeu ao ilustre astrônomo a comenda da “Ordem da Rosa”. Um monumento alusivo à visita foi inaugurado mais tarde. Outros títulos e honrarias lhe são concedidos pelos governos da Espanha e Romênia. A Academia Francesa lhe confere em 1880 o prêmio Montyon por seu livro “Astronomia Popular”, traduzido em todas as línguas. Em 28 de janeiro de 1887 reune em sua residência vários astrônomos, amigos da ciência e colaboradores para criar a Sociedade Astronômica da França.

D.Pedro II é então um dos primeiros membros fundadores (de nº. 85) bem como o ‘Pai da Aviação’ e astrônomo amador, Alberto Santos Dumont. Milhares de astrônomos profissionais e amadores de todo o mundo voltados aos mesmos ideais de contemplar, observar e estudar o céu fazem parte da Sociedade. Minha inscrição como membro titular feita em 1959 já era de nº 21.080! Segundo Gabriel Delane, Flammarion foi um filósofo enxertado em sábio, possuindo a arte da ciência e a ciência da arte. Flammarion – ‘o poeta dos céus’ - como o denominou Michelet, partiu da vida para a história nos braços da esposa Gabrielle na biblioteca do Observatório na tarde do dia 03 de junho de 1925.

Na manhã ensolarada desse dia, com a esposa ao visitar os jardins do Observatório, onde a vida irradiava nas flores e nos cantos dos pássaros, disse: ”que mistério é a vida, que mistério é a morte...”. Flammarion foi enterrado nos jardins do Observatório de Juvisy. Todos os anos na data do seu desenlace, membros da Sociedade Astronômica da França reúnem-se à volta do seu túmulo para reverenciar sua memória e os ensinamentos legados a todos os que cultuam a ciência do céu. Flammarion é sem dúvida alguma o astrônomo que mais despertou mentalidades voltadas a Astronomia.

No Brasil, três observatórios o homenagearam com seu nome: O Observatório Popular Flammarion de Fortaleza (CE), fundado pelo ilustre astrônomo e escritor Rubens de Azevedo em 1947; o Observatório Astronômico Flammarion de Matias Barbosa (MG), fundado pelo autor em 1954 e o Observatório Camille Flammarion instalado em Vitória (ES), pelo astrônomo Walace F. Neves. Como não poderia deixar de ser, mais tarde Flammarion teve seu nome perpetuado em uma cratera lunar. De lá certamente seu espírito contempla o imenso universo que ele tanto amou.


* Nelson Alberto Soares Travnik é Diretor do Observatório Astronômico de Piracicaba (OAP) e astrônomo do Observatório Municipal de Americana (OMA).

 
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Produção e contatos

Irineu Gomes Varella

Astrônomo. Diretor do Planetário do Ibirapuera e
da Escola Municipal de Astrofísica de São Paulo,
no período de 1980 a 2002.

Priscila D. C. F. de Oliveira

Coordenadora do Centro de Documentação Técnica e Científica em Astronomia do
Planetário e E. M. de Astrofísica de S Paulo.

Ultima atualização: 04 de Julho de 2006
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