Histórias
da Astronomia
Produção: Irineu G. Varella & Priscila D.C.F. de Oliveira

Nº 021 - 05 de Novembro de 2005


 
HISTÓRIA DA ASTRONOMIA NO BRASIL - Parte I
( Da descoberta do Brasil ao final do Período Colonial )
Álvaro de Freitas Armbrust *
 

Pode-se dizer que a Astronomia no Brasil nasceu com a própria terra brasileira. Quando a esquadra de Pedro Álvares Cabral deixou as praias portuguêsas em demanda das Índias (segundo se propalava), em uma de suas naus viajava o "cirurgião e físico" Mestre João.

Navegando por mares pouco ou nada conhecidos, era mistér que nessas empreitadas tomassem parte soldados que sustentassem as refregas tão de esperar; sacerdotes que mantivessem a bordo o espírito cristão e o implantassem nas terras por ventura descobertas e astrônomos que registrassem os dados geográficos indispensáveis à localização das novas conquistas. Não é de estranhar, portanto, que além de mais de 1.000 homens d'armas e de 7 missionários franciscanos, viajassem com Cabral o "físico" Mestre João.

Quase nada se sabe deste homem. Não fôra a carta enviada a D. Manuel de Portugal por intermédio de Gaspar de Lemos ( o mesmo que entregou também ao soberano Venturoso a famosa carta de Pero Vaz de Caminha ), talvez se tivesse ele perdido no anonimato de muitos outros que a História não identifica. No entanto, foi quem pela primeira vez determinou uma latitude em terras brasileiras, no dia 27 de abril de 1500.

Referiu-se, na mencionada missiva, à "Cruz", nome pelo qual era conhecido o Cruzeiro do Sul, já observado por Hiparco e por Ptolomeu, que o consideravam parte da constelação do Centauro. Na "Cruz", Mestre João assinalou o fato de que suas "Guardas", as estrelas alfa e gama, apontavam na direção do pólo sul celeste, tal qual as "Guardas" ou "Ponteiros" da Grande Ursa em relação ao pólo norte celeste. Talvez por querer comparar em excesso é que Mestre João escreveu ter visto uma estrela "pequena" e "muito clara", réplica austral da "Polaris" boreal.

Deve ter sido grande o desapontamento dos que mais tarde a buscaram, pois sabe-se que a região do pólo sul celeste é pobre em estrelas, aí não existindo nenhuma que equivalha, em magnitude e localização, à alfa da Pequena Ursa.

Mestre João observou ainda as principais estrelas da constelação do Centauro, do Triângulo ( alfa, beta e delta ) e do Pavão ( beta, gama e delta ). Curioso bastante é que, em sua carta, não tivesse aquele cirurgião "doublé de astrônomo", feito qualquer menção a objetos já conhecidos de observadores dos céus austrais e que não têm equivalente no hemisfério norte, como as Nuvens de Magalhães, e que nenhuma palavra tivesse dedicado ao "Saco de Carvão", nebulosa escura tão nítida no Cruzeiro do Sul.

Depois da viagem de Cabral, a necessidade de fundar ou incrementar o desenvolvimento de entrepostos costeiros fez com que D. Manuel, e depois de 1521 D. João III, enviasse algumas expedições à Província de Santa Cruz, como então se denominava o nosso país. As observações feitas durante esse período tiveram sempre cunho eminentemente prático, qual seja o de determinar coordenadas geográficas capazes de facilitar a feitura de um mapa das costas brasileiras.

Esse estado de coisas se prolongou por muitos anos, enquanto importantes acontecimentos ocorriam em Portugal. A D.João III sucederam D. Sebastião e o Cardeal D. Henrique. Com o falecimento deste, em 1580, Filipe II da Espanha, neto de D. Manuel, reclamou para a si a coroa luzitana e unificou a península Ibérica. Filipe II, porém, estava em Guerra com a Holanda por questões religiosas ( A Reforma ). Os flamengos, aliás, para os quais tanto representava o mar, já há muito tinham deixado de ser simples pescadores para se tornarem prósperos comerciantes e desejarem, agora, transformar-se em perigosos conquistadores.

Estas razões explicam porque voltaram os olhos cobiçosos para o Novo Mundo, tentando fixar-se na Bahia (1624). Mal sucedidos nessa primeira investida, voltaram à carga em 1630, desembarcando em Pernambuco, onde lhes foi favorável. Sete anos depois aí chegou para administrar a recém-fundada colônia batava, o Conde João Maurício de Nassau. Além de bravo militar, era Nassau organizador e homem de cultura, motivo por que não tardou a se cercar de elementos de escól, tais como Franz Platz (teólogo), Franz Post (pintor), Peter Post (arquiteto), Wilhelm Pies (médico) e George Marcgrave. Este último é quem mais nos interessa.

Natural da Saxônia, onde nasceu em 1601, fez estudos de Botânica e Astronomia na Alemanha e na Holanda. Neste país conheceu João de Laet, diretor da Companhia das Índias Ocidentais, de quem se tornou amigo e com cujo auxílio conseguiu vir ao Brasil. Desembarcou em março de 1638 e já um ano depois instalou, numa das torres do palácio de Friburgo, que Nassau fizera construir na Ilha de Antônio Vaz, um observatório astronômico, o primeiro do Novo Mundo e do hemisfério austral. Aí foram igualmente feitas as primeiras observações astronômicas e meteorológicas sistemáticas do Novo Continente.

Marcgrave se interessou pela execução de um mapa estelar que abrangesse toda a zona compreendida entre o Trópico de Câncer e o pólo Antártico; fez numerosas determinações das longitudes, estudou e anotou dados sobre os planetas superiores e inferiores, sobre conjunções e ocultações e observou cinco eclipses: um do Sol e quatro da Lua. Um destes, o de 13 de novembro de 1640, foi o primeiro cientificamente acompanhado no Novo Mundo. É lamentável que se tenham perdido muitos dos manuscritos de Marcgrave, reunidos sob o título de "Progymnastica Mathematica Americana", cuja primeira seção versava sobre Astronomia e Óptica; por certo teriam sido de grande interesse para a História da Astronomia no Brasil.

Seria injusto, nesta resenha, esquecer os nomes de alguns jesuítas que também contribuiram com sua parcela para as observações astronômicas no Brasil colonial. A Companhia de Jesus que muito se preocupava com a situação religiosa e moral do nosso país em seus primórdios, para cá enviou numerosos e cultos missionários. Estes logo se empenharam no ensino da nossa população, criando os "Colégios", que se foram rapidamente multiplicando. Neles lecionavam Matemática, Física, Lógica, etc, conferindo mesmo diplomas de Bacharel e de Mestre em Artes. Alguns padres, porém, tinham se dedicado na Europa à Astronomia e aqui continuaram suas pesquisas. Entre eles merecem especial menção Valentim Estancel e Aloísio Conrado Pfeil.

Estancel, natural da Morávia, nascido em 1621, viveu muitos anos em Portugal, onde foi professor de Astronomia em Évora e em Lisboa. Enviado ao Brasil, aqui fez várias observações sobre planetas e cometas. Escreveu mesmo uma obra bastante curiosa (Uranophilus Coelestis Peregrinus sive mentis Uranicae per mundum sidereo peregrinantis Extases, 1685), em que se considera peregrino dos espaços celestes, cuja constituição explica como sendo em parte líquida e em parte sólida.

Não menos extravagante era a sua concepção sobre os cometas, que admitia serem gerados pela conjunção de dois planetas. Convenceu-se desta origem quando, após ter assistido a uma conjunção de Saturno com o Sol, em 01 de novembro de 1689, descobriu, no mês seguinte, um cometa que julgou ser "movido por algum anjo". Aloisio Conrado Pfeil também realizou numerosos trabalhos de cartografia, tendo no Pará, observado um cometa em 1695.

O século XVII não terminaria sem que ao Brasil chegasse uma eminente figura da Astronomia. De fato, aqui veio ter Edmund Halley que, em 1682, descobriu o cometa que leva seu nome e cuja reaparição previu para 1758. Durante sua permanência no Brasil, fez Halley várias determinações de latitudes, inclusive a do Rio de Janeiro.

Em 1736 aportava ao Pará uma comissão de sábios franceses, entre os quais se encontrava Charles Marie de La Condamine. Haviam sido nomeados pela Academia de Ciências de Paris para determinar, no equador terrestre, um arco de meridiano, incumbência que outra comissão equivalente, chefiada por Maupertuis e trabalhando a 70º de latitude norte, tratava também de fazer para fins comparativos. Puderam estes cientistas, por tal processo, demonstrar o achatamento polar da Terra.

Terminadas suas investigações pediu La Condamine autorização ao governo português para continuar, em território brasileiro, algumas pesquisas de interesse. Obtendo-a, percorreu o rio Amazonas até Belém do Pará (1743), fazendo o levantamento do curso desse rio. Comprovou, também, variar o número de oscilações pendulares, conforme a altitude e verificou que, no equador, um corpo perde 1/1000 de seu peso quando a altitude aumentava de 4.000 m.

Conforme já relembramos, em 1580 havia Filipe II enfeixado em suas mãos os governos de Portugal e Espanha. Nessa época tornou-se, por assim dizer, caduco o Tratado de Tordesilhas, que em 1494, havia regulado a divisão de terras entre as coroas portuguêsa e espanhola, segundo linha teórica que o Papa Alexandre VI fez passar a 370 léguas à oeste das ilhas de Cabo Verde.

A "restauração" da liberdade portuguêsa, conseguida por D. João IV, 60 anos depois (1640), nem por isso trouxe maiores preocupações quanto à vigência daquele tratado. Só em 1750 as discordâncias entre as duas nações chegaram ao ponto que decidiu-se, pelo Tratado de Madrid, rever a questão. Ficou convencionado que comissões mistas luso-espanholas, ao norte e ao sul do Brasil, tratariam de uma demarcação mais precisa de limites. Geógrafos, engenheiros e astrônomos efetivamente para cá vieram, mas só em parte alcançaram sua finalidade.

Por esse motivo foi aquele Tratado anulado em 1761 e substituído, em 1777, pelo de Santo Idelfonso. Novas expedições foram organizadas e a destinada ao norte de nosso país começou seus trabalhos em 1781. Esta data teve para nós especial importância pois, pela primeira vez, e desempenhando com grande eficiência suas funções, deles participaram os astrônomos brasileiros Antônio Pires da Silva Pontes (baiano) e Francisco José de Lacerda e Almeida (paulista), ambos formados em Portugal pela Universidade de Coimbra.

PARTE II


* Álvaro de Freitas Armbrust foi sócio-fundador da Associação de Amadores de Astronomia de São Paulo, tendo sido Diretor Social no biênio 1952-1954, Bibliotecário no biênio 1954-1956 e Vice-Presidente no biênio 1956-1958.

Texto escrito originalmente para ser publicado na revista ASTRONOMIA da ASSOCIAÇÃO DE AMA- DORES DE ASTRONOMIA DE SÃO PAULO, em 1965.

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Produção, autores e contatos

Irineu Gomes Varella

Astrônomo. Diretor do Planetário do Ibirapuera
e da Escola Municipal de Astrofísica
de São Paulo, no período de 1980 a 2002.

Priscila D. C. F. de Oliveira

Coordenadora do Centro de Documentação Técnica e Científica em Astronomia do Planetário e
Escola Municipal de Astrofísica de S Paulo.

Web Designer: Irineu Gomes Varella
Ultima revisão: 05 de Novembro de 2005

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