Histórias
da Astronomia
Produção: Irineu G. Varella & Priscila D.C.F. de Oliveira

Nº 023 - 28 de Novembro de 2005


 
HISTÓRIA DA ASTRONOMIA NO BRASIL - Parte II
( Da vinda da Familia Real ao Brasil até 1960 )
Álvaro de Freitas Armbrust *
 

Como vimos na primeira parte, os astrônomos citados foram praticamente todos estrangeiros vindos ao Brasil para rápidas estadias. Os poucos que aqui se demoraram (Estancel, 12 anos, Pfeil, 16 anos e Diogo Soares, 19 anos) não cogitaram de fazer escola, transmitindo a outrém seus conhecimentos. Além disso, não havia em nosso país uma instituição em que se pudesse ensinar e praticar a Astronomia.

As vitórias napoleônicas no continente europeu obrigaram a emigração da família real portuguêsa para o Brasil, onde nobres e o Príncipe-Regente D. João chegaram em 1808. Muitas e radicais transformações foram então introduzidas no regime colonial a que estávamos submetidos. No campo que nos interessa, devemos lembrar a criação, em 1809, de um observatório para uso da Companhia dos Guardas-Marinha. Como conseqüência benéfica dessa medida tivemos, já no ano seguinte, a primeira publicação de efemérides náuticas do Brasil, calculadas por Joaquim Inácio Moreira Dias.

Ainda em 1810 foi fundada a Academia Real Militar que, com o tempo, se transformaria em Escola Politécnica. Um dos professores desta Academia foi Manuel Ferreira de Araujo Guimarães, natural da Bahia, que regeu sua cátedra durante 10 anos (até 1821). Araujo Guimarães traduziu trabalhos úteis ao ensino de seus discípulos e a ele coube publicar os primeiros livros de Astronomia e Geodésia feitos no Brasil: Elementos de Geodésia (1815) e Elementos de Astronomia (1816).

Tais livros não eram originais em seu conteúdo, mas mostravam que seu autor estava bem familiarizado com o assunto sobre o qual escrevia. Aliás, conforme explicou na introdução de seus Elementos de Astronomia, destinavam-se aquelas obras aos alunos da Academia Real Militar e tinham como escopo apenas "os conhecimentos necessários a um militar".

Em 1821 deixou D. João VI o Brasil e, em 1822, proclamava-se a nossa Independência. O panorama nacional já havia, portanto, mudado sensivelmente. Foi quando, em 1827, decidiu-se criar um observatório astronômico no Rio de Janeiro. Como tantas outras iniciativas, esta também, não pôde ser logo concretizada. Nomeada uma comissão que deveria escolher o local para a sua construção, houve desacordo entre os membros que a compunham e nada se fez de positivo.

Em 1840, proclamou-se a maioridade antecipada de D. Pedro II, monarca que se distinguiu, entre outras coisas, pelo amparo que dava às ciências e às artes. Em 1845, por fim, instalou-se o Imperial Observatório do Rio de Janeiro, no Morro do Castelo. Seu primeiro diretor, Soulier de Sauve, desaprovou o local e realizou suas observações no Forte da Conceição, existente no Morro do mesmo nome.

Falecendo em 1850, foi Soulier de Sauve substituído por Antônio Manuel de Melo, natural de São Paulo. O Observatório, já agora aparelhado para observações regulares, pôde enfim, em 1852, publicar as "Efemérides do Imperial Observatório Astronômico para 1853", primeiro anuário do gênero publicado entre nós.

Em 1858, viajou Antonio Manuel de Melo para Paranaguá com uma comissão que deveria observar o eclipse solar de 07 de setembro daquele ano, quando pela primeira vez, seria usada a fotografia para fins astronômicos. Outro eclipse solar (total) ocorreu em 1865 e, de novo, partiu o diretor do Observatório para o sul, desta vez para o Estado de Santa Catarina (Camboriú). O mau tempo, porém, prejudicou as observações do fenômeno, acompanhado pelo Imperador D. Pedro II, em seu palácio de São Cristóvão.

Já então estava o Brasil em guerra com o Paraguai (1864) e Antônio Manuel de Melo seguiu, em 1865, para o "front" como militar, aí falecendo no posto de Brigadeiro Comandante-Geral de Artilharia em 1866. Substituiu-o, em 1865, Curvelo d'Avila, cuja gestão foi prejudicada pela escassês de auxiliares, muitos dos quais empenhados na luta contra Solano Lopez. Apesar disso, o Observatório ainda publicou suas Efemérides em 1869.

Em 1870 tornou-se diretor do Imperial Observatório, o astrônomo Emmanuel Liais, ex-auxiliar de Leverrier no Observatório de Paris e membro da comissão que, com Antônio Manuel de Melo, observara em Paranaguá o eclipse de 1858. Desde esse ano, permanecia Liais no Brasil, graças à benevolência de D. Pedro II que, como amador e respeitável conhecedor da Astronomia, lhe devotava admiração.

Antes de ocupar o cargo de diretor do Observatório do Rio de Janeiro, fizera várias e importantes observações, principalmente sobre os cometas, um dos quais descobriu em 1860, quando em Olinda. Considerando indispensável o reaparelhamento do Imperial Observatório, embarcou para a Europa a fim de adquirir instrumentos que não podiam ser fabricados no Brasil. Durante seus três anos de ausência foi substituído pelo Visconde de Prados, há muito dedicado à Astronomia.

Ao retornar do velho continente, trouxe Liais, de fato, aparelhagem de excelente qualidade com que foi possível delinear um programa definido de futuros trabalhos. Fêz, então, importantes observações sobre Marte (paralaxe) e Mercúrio, com a valiosa colaboração de Manuel Pereira Reis. Liais era, porém, homem excessivamente autoritário e tão freqüentes e sérios foram os atritos que provocou, que por fim demitiu-se em 1881.

Sucedeu-o, interinamente, Louis Cruls, belga de nascimento e já radicado no Brasil há alguns anos, durante os quais empreendeu interessantes observações a respeito de Marte, de Mercúrio e dos planetóides, além de uma classificação de estrelas duplas e múltiplas do hemisfério sul. Durante sua gestão foram ainda catalogadas, até a nona magnitude, 623 estrelas próximas do zênite, observados cometas, um dos quais recebeu o seu nome (setembro de 1882), reiniciada a publicação do Anuário do Observatório (1883) e, principalmente, feita cuidadosa observação da passagem de Vênus sobre o disco solar (06 de dezembro de 1882), cujo valor foi exaltado no estrangeiro.

Em 1884, Cruls representou o Brasil na Conferência de Washington em que se adotou o meridiano de Greenwich como meridiano inicial de referência para longitudes e hora internacional. Em 1886, iniciou a publicação de um periódico mensal, a "Revista do Observatório". Em 1887, representou nosso país num congresso internacional para a Carta Topográfica do Céu, época em que visitou, em companhia de D. Pedro II, o observatório em que se havia recentemente instalado Flammarion, em Juvisy.

Em 1892, já agora sob regime republicano instaurado no Brasil três anos antes, foi Cruls designado para estudar a região do Planalto Goiano, para onde se pensava transferir a capital do país. Em 1901, chefiou a comissão que deveria demarcar os limites entre o Brasil e a Bolívia. Desincumbiu-se brilhantemente de todas as tarefas, mas a sua saúde, já abalada, sofreu rudemente com essa última viagem.

Foi, depois disso, algumas vezes obrigado a abandonar provisoriamente o Observatório, até que se decidiu a tentar, na França, uma cura que não lhe pôde ser proporcionada. Faleceu Cruls em 1908, com uma folha de serviços prestados ao Brasil que poucos conseguiram igualar e que o tornaram especial credor de nosso reconhecimento.

Sua vaga foi preenchida por Henrique Morize, que havia nascido na França mas que morava no Brasil desde a idade de 14 anos. Morize fez várias observações sobre os cometas, para o que foi propício o reaparecimento, em 1910, do Cometa Halley. Desenvolveu, com grande empenho, a Seção de Meteorologia e iniciou, em 1911, o serviço de previsão de marés. Em 1914, fez adotar o sistema de horas legais e fusos horários.

Morize considerava imprópria a localização do Observatório e durante muito tempo bateu-se pela sua mudança para o Morro de São Januário, que foi realizada em 1921. A rápida evolução da aparelhagem destinada à previsão de marés tornou obsoleta a que se possuia no Rio, motivo por que Morize a atualizou. Falecendo em 1930, foi Morize substituído por Sodré da Gama, que continuou sua obra em todos os setores.

Em 1952 assumiu a direção do Observatório do Rio de Janeiro o astrônomo e matemático Lélio Gama, que orientou, com grande sabedoria e competência estudos sobre a variação dos pólos terrestres, determinações das latitudes, observações de planetas e estrelas duplas, determinação da hora exata, etc.

Em São Paulo, o germe do nosso Observatório Astronômico foi o Serviço Meteorológico, criado em 1892 e então entregue à direção de F. Schneider. Em 1902, substituiu-o Belfort de Matos, em cuja residência instalou-se a aparelhagem destina às observações astronômicas. A velha mansão da aristocrática Avenida Paulista, dessa forma adaptada, carecia de condições de pesquisa à altura da grande metrópole bandeirante.

Mesmo assim, durante 24 anos não arrefeceu o ardoroso esfôrço de Belfort de Matos. Em 1927, passou o Observatório do Estado às mãos de Alípio Leme de Oliveira e, em 1932, iniciou-se a construção do Instituto Astronômico e Geofísico de São Paulo, terminada em 1941.

Em 1949, o interesse pela Astronomia deixou de ser uma preocupação puramente oficial: congregou diletantes que, isoladamente, se entregavam a observações pessoais. Menos de uma dezena de entusiastas decidiu fundar uma agremiação que veio a ser a Associação de Amadores de Astronomia de São Paulo (AAA). Décio Fernandes de Vasconcellos foi o seu primeiro presidente.

A Associação progrediu rapidamente graças, em grande parte, à dedicação de Aristóteles Orsini a quem coube, entre outros privilégios, o de ser o apresentador da sessão inaugural do Planetário do Ibirapuera, em 1957. Esse Planetário, inspiração da AAA e realização da Prefeitura do Município de São Paulo, tem representado uma fonte inesgotável de divulgação da Astronomia.

Ampliando seu amparo às iniciativas no campo dessa ciência, a AAA já construiu um radiotelescópio, o primeiro da América Latina. A Associação de Amadores de Astronomia de São Paulo foi, desde de 1957, encarregada do funcionamento do Planetário do Ibirapuera. Lançada a semente do amadorismo organizado, emprestou a AAA sua experiência a várias congêneres que surgiram no Brasil e no estrangeiro e seu Diretor Científico, Abrahão de Moraes, em 1954, preencheu a vaga deixada por Alípio Leme de Oliveira na direção do Instituto Astronômico e Geofísico de São Paulo.

 
Não pretendemos senão esboçar a História da Astronomia no Brasil. As omissões poderão ser completadas por aqueles que se interessarem pela matéria, dentre os quais talvez surjam nomes a serem inscritos em futuras revisões do assunto.

PARTE I


* Álvaro de Freitas Armbrust foi sócio-fundador da Associação de Amadores de Astronomia de São Paulo, tendo sido Diretor Social no biênio 1952-1954, Bibliotecário no biênio 1954-1956 e Vice-Presidente no biênio 1956-1958.

Texto escrito originalmente para ser publicado na revista ASTRONOMIA da ASSOCIAÇÃO DE AMA- DORES DE ASTRONOMIA DE SÃO PAULO, em 1965.

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Produção, autores e contatos

Irineu Gomes Varella

Astrônomo. Diretor do Planetário do Ibirapuera
e da Escola Municipal de Astrofísica
de São Paulo, no período de 1980 a 2002.

Priscila D. C. F. de Oliveira

Coordenadora do Centro de Documentação Técnica e Científica em Astronomia do Planetário e
Escola Municipal de Astrofísica de S Paulo.

Web Designer: Irineu Gomes Varella
Ultima revisão: 28 de Novembro de 2005

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