Histórias 
da Astronomia
Produção: Irineu G. Varella & Priscila D.C.F. de Oliveira
Nº 028 - 01 de Junho de 2009  

 

A COMISSÃO CIENTÍFICA EXPLORADORA DE 1859 E OS
150 ANOS DO PRIMEIRO OBSERVATÓRIO ASTRONÔMICO CEARENSE
 
George Yure de Andrade Castro *
 
Durante os séculos depois do Renascimento Cultural, o desenvolvimento das ciências vem ganhando cada vez mais grande importância para a humanidade. Todas as ramificações científicas de conhecimento desde a medicina às ciências políticas, à história, às ciências naturais e à astronomia, ganharam grandes colaboradores de importância até os séculos atuais. Nicolau Copérnico, Kant, Spinosa, Descartes, Newton, Voltaire, Loke, Darwin, Einstein, Halking e etc. Exemplos de grandes nomes da ciência bastante venerados e admirados pelo público pelos seus feitos e teorias que revolucionaram e revolucionam a humanidade desde antes do período da revolução industrial.
 
Mas falando da ciência de urânia, na Astronomia mundial, o desenvolvimento de novas leis como as leis estabelecidas por Kepler e posteriormente por Newton, e a descoberta de novos planetas quase invisíveis (no caso de Urano) por William Herschel e invisíveis, (no caso de Netuno) por Leverrier e Galle, vem a propiciar um grande avanço na ciência do céu, que vem a culminar no século XX com a ida do homem ao espaço e com a chegada do homem à Lua em 1969. Mas, em se tratando da história do desenvolvimento da astronomia em nosso país, o seu maior incentivador dela aqui no século XIX foi D. Pedro II, (assim afirma Rubens de Azevedo no item intitulado: D. Pedro II e a Astronomia) que orientado quando jovem pelo litógrafo e artista francês Louis Alexis Boulanger (1798-1874) e pelo Frei Pedro de Santa Maria que realizou a primeira pesquisa matemática publicada no Brasil em 1824, foi que passou a tomar iniciativa de desenvolver a Astronomia aqui, culminando com a autonomia e a modernização do antigo observatório imperial da Família Real Portuguesa que passou a se chamar: Imperial Observatório do Rio de Janeiro.
 
Graças a iniciativa do Imperador em 1838 foi criado no Rio de Janeiro o Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro (IHGB) em que se juntaram as mais diversas expressões da ciência e da cultura brasileiras; iniciaram seus trabalhos sob a supervisão e presidência do Imperador que era uma das figura mais ativas nas reuniões trazendo, ânimo, apoiando a equipe e dando sugestões de trabalhos, sempre participando dos vários debates científicos que ocorriam.
 
A partir das reuniões do Instituto, tiveram os cientistas a idéia de criar uma comissão científica exploradora, em uma sessão que ocorreu em 30 de maio de 1856. Essa comissão científica veio para o Ceará em 1859 com atraso de 3 anos devido a questões políticas. Veio essa comissão com o intuito de estudar melhor as várias regiões do país, sua flora e sua fauna, assim como conseguir material para ser exposto no Museu Nacional. A escolha do Ceará, como a primeira província a ser visitada ocorreu desde 1857, pois acreditava-se que através de informações que chegavam ao Rio de Janeiro, feitas pelos intelectuais locais que o nosso solo era muito rico em minerais e precisava de um aprofundamento nessas pesquisas por parte do Governo. Cearenses estudiosos das ciências naturais como Thomaz Pompeu de Sousa Brasil que também fez estudos relativos as “secas no Ceará“, já escrevia sobre isso em seus livros e dicionários científicos.
 
“Na parte mineralógica encontra-se ouro em várias partes; prata, plumbagina, chumbo, ferro, antimônio, arsênico, antracito, mármore, calcários, pórfiros, diversos cristais, nitreiras e salinas em toda costa”.
(Fonte:Dicionário Estatistico da Província do Ceará 1861).
 
Com o Ceará sendo escolhido como a primeira região a ser visitada pela comissão científica, eles embarcaram no navio a vapor “Tocantins“ e chegando aqui, desembarcaram no antigo porto nas próximidades de onde ficam atualmente as pontes “Metálica“ e dos “Ingleses“; desembarcaram seus equipamentos inicialmente no depósito da praia e ao se deslocarem para o local da sua hospedagem pela antiga "rua da Ponte" atual Avenida Alberto Nepomuceno, deixaram seus equipamentos importados da França (principalmente os equipamentos para o observatório), nas dependências do Hospital de Caridade, atual "Santa Casa de Misericódia" onde também nas dependências deste, funcionava o Liceu do Ceará. Eles se intalaram na casa do comendador José Antônio Machado onde hoje fica o atual "Excelsior Hotel" e ficaram em Fortaleza durante seis meses. Nesse período, além de recolherem amostras de plantas, minerais e estudar o solo local, fizeram pesquisas climatológicas e também levantamento topográfico da região de "Arronches", atual Parangaba e Messejana para a Carta Itinerária da Província do Ceará.
 
Quando partiram daqui de Fortaleza, fizeram visitas a várias cidades do interior do estado continuando a coleta de amostras, e seus estudos, fazendo inclusive pesquisas sobre as condições em que viviam os povos indígenas da Ibiapaba na época e de outras regiões do estado.
 
Essa comissão composta de várias figuras ilustres e conhecidas na sociedade brasileira, foram responsáveis pela instalação do "primeiro observatório astronômico do Ceará" e o terceiro do Brasil segundo consta no livro "Temas Astronômicos - Volume II” no capítulo intitulado: O Primeiro Observatório Astronômico do Ceará. Seus integrantes eram coordenados pelo intelectual Francisco Freire Alemão responsável pela seção de botânica, tendo nas outras seções: Rajha Gablagia como o coordenador da seção astronômica e geográfica, Guilherme Shuch Capanema como o coodenador da seção Geológica e Mineralógica, o grande poeta indianista Gonçalves Dias como o coordenador da seção antropológica, dentre outros.
 
O observatório foi escolhido para ser instalado no Morro do Coroatá (hoje Morro do Croatá, próximo do atual cemitério São João Batista a partir da estação Ferroviária), pelo próprio Gabaglia. Gonçalves Dias em uma de suas crônicas para o “Jornal do Commércio“ do Rio de Janeiro assim relatava sobre o observatório provisório e sua provável aparência:
 
'"O Dr. Gabaglia, além de optar pelo melhor centro de observações geodésicas, teve também em vista fixar um ponto importante para a mareação dos navegantes; e, neste caso, está o Caruatá, que é um dos mais notáveis e mais apropriados para o efeito, pelo que a barraca de madeira que ali se está construindo para servir de observatório não é um simples abrigo para servir de observatório não é um simples abrigo para o perfeito instrumental de Ertel, que marca um segundo arco; é, e ficará sendo principalmente para os navegantes que demandam os canais pelos quais se entra no porto e cidade de Fortaleza, uma baliza fixa, distinta e difícil de confundir-se com outra. Esta construção, cujos desenhos alcancei ver, não tem de notável em si senão transformar-se toda em janelas e desconjuntar-se o tecto e paredes em quartéis que se poderão abrir e cerrar como for preciso; está se preparando por peças e dentro de poucos dias ficará assentado o observatório do Caruatá."
 
Ainda com relação a este observatório, contava com um bom material em termos de equipamentos, tanto de instrumentos ópticos (1 telescópio completo e 3 lunetas), como de outros materiais de pesquisa: (barômetros, fotômetros, termômetros para solos, teodolitos e etc..). Na inauguração deste observatório, houve uma grande festa que foi noticiada no dia seguinte a sua inauguração que ocorreu no dia 26 de junho daquele ano pelo jornal "O SOL" afirmando que a festa era em honra de S. Majestade Imperial, vindo a terminar por volta das duas horas da madrugada.
 
Renato Braga em seu livro “História da Comissão Científica Exploradora” dá ênfase ao intercâmbio de conhecimentos entre a comissão e os intelectuais locais quando afirmava que estes reuniam-se promovendo palestras e conferências para discutir os problemas relativos à província na casa de Thomaz Pompeu. Foi inclusive nesse período a sugestão da vinda de camelos para o Ceará, fato que acabou terminando em um grande fracasso uma vez que esses animais não se adaptaram as condições locais e acabaram morrendo em pouco tempo.
 
A comissão científica ainda ficou aqui no Ceará até 1860 quando então partiram no vapor Cruzeiro do Sul em direção ao Rio de Janeiro. Uma parte dos estudos astronômicos, feito pela comissão científica nessas viagens ao interior do estado e no observatório provisório em Fortaleza chegaram a revelar vários aspectos interessantes como a diferença de duração dos dias e das noites durante o ano, fenômenos luminosos, e até relato sobre chuvas de estrelas cadentes e o pânico que esses fenômenos causavam nas camadas populares do interior quando aconteciam de modo mais intenso. No livro “Ensaio Estatístico da Província do Ceará”, Tomas Pompeu de Sousa Brasil relata com bastante precisão essas questões nas páginas 124, 125 e 126 apresentando, inclusive, um grande gráfico que mostra o registro das horas nos respectivos períodos das observações:
 
“Pela posição geographica desta cidade a extensão dos dias maiores é de 12h.14', e a dos menores de 11h. 46': ha por consequencia uma differença de 28', quasi meia hora, entre os dias do mez de desembro e os do mez junho” (Fonte: Ensaio Estatístico do Ceará 1863)
 
Quanto aos fenômenos astronômicos, fizeram referências às observações da luz zodiacal, fenômeno que é observado em determinadas épocas do ano e que muitas pessoas confundem com o brilho do pôr-do-sol ou do nascer do sol, só que ocorrem um pouco antes, no caso do nascente por volta das 4:00h da manhã ou um pouco depois do poente entre 6:30 h e 7:00 h.
 
“A luz zodiacal observa-se constantemente, maxime depois do inverno, de maio em diante: logo depois do sol posto apparece da parte do poente uma luz esbranquiçada e de forma lenticular, que geralmente confundem com o crepusculo.” (Fonte: Ensaio Estatistico do Ceará 1863)
 
Thomaz Pompeu relata na página 126, sobre as observações das estrelas cadentes aqui no Ceará e sobre o comportamento das pessoas ao ver esse tipo de fenômeno no interior:
 
“Não é raro nas noites da estação secca, principalmente nos mezes de agosto e novembro, o phenomeno das estrellas cadentes; contam-se mesmo casos de tal abundancia dellas, que tem causado medo aos povos. Figura isto chuva de estrellas, ou parece que a abobada celeste se vai desmanchar em estrellas cadentes. É certamente o phenomeno muitas vezes observado por Humbolt na America e que elle chama chuva de estrellas.” (Fonte: Ensaio Estatístico do Ceará 1863)
 
Entrevistando moradores das cidades interioranas, a comissão científica teve acesso a relatos muito interessantes sobre esses fenômenos aqui no Ceará.
 
“Algumas pessoas antigas de Sancta Quitéria referiram-me que no anno de 1799 houve uma chuva espantosa de estrellas desde a madrugada até alto dia, correndo aos milhares em todos os sentidos, como grandes foguetes, e muitas accompanhadas de fortes detonações. O povo correu à igreja e pedia misericordia suppondo ser chegado o fim do mundo.” (Fonte: Ensaio Estatistico do Ceará 1863)
 
Após a partida dos científicos como eram chamados, o observatório, apesar de ter ficado aos cuidados da guarda da província até 1863, com o tempo, acabou sendo esquecido e furtado. Como era feito de madeira e se encontrava em local muito isolado na época, aos poucos os moradores mais carente do local foram levando seus pedaços para fazerem suas casas e ou cercados, restando apenas parte dele e seu pedestal de bronze que acabaram por terminar no Depósito de Obras Públicas Municipal. Depois disso, ninguém mais teve informações sobre os destroços do observatório. Quanto as pesquisas da seção de astronomia, parte delas ainda deve se encontrar no IHGB ou na Biblioteca Nacional. Ainda há muito a se pesquisar sobre essa comissão, que teve suas polêmicas e problemáticas quando estiveram por aqui, mas que realizaram um trabalho científico muito interessante para sabermos mais sobre nosso território brasileiro e principalmente sobre o nosso querido estado do Ceará.
 
Fig.01 - Localização do Observatório - 1859.
Fig.02 - O Observatório - Fortaleza 1859.
 

 
Bibliografia:
 
ALEGRE, Maria Silvia Porto. "Comissão das Borboletas". A Ciência do Império entre o Ceará e a Corte. Ed. do Museu do Ceará, Fortaleza, 2003.
 
AZEVEDO, Rubens de. "O Primeiro Observatório Astronômico do Ceará". Temas astronômicos II, Fortaleza, 1982.
 
BRAGA, Renato. História da Comissão Exploradora. Imprensa universitária do Ceará, 1962.
 
BRASIL, Thomas Pompeu de Sousa. Dicionário topográfico e estatístico da província do Ceará, Rio de Janeiro, 1987.
 
BRASIL, Thomas Pompeu de Sousa. Ensaio estatístico da província do Ceará, Rio de Janeiro, 1987.
 
BRÍGIDO, João."Ceará, Homens e Fatos" - Ed. Democrito Rocha, Fortaleza, 2001.
 
FROTA, Francisco Marialva Mont’Alverne. O canário da terra dos sabiás. Instituto do Ceará, 1976.
 
Revisão do texto:
 
Ariana Herculano Bezerra Tabosa, professora de língua francesa formada em Letras pela Universidade Federal do Ceará (UFC) e atualmente aluna do curso de Letras Clássicas da UFC.
 

*George Yure de Andrade Castro é historiador formado pela Universidade Federal do Ceará, professor de História e Geografia e astrônomo amador. É membro fundador do CASF - Clube de Astronomia de Fortaleza.

 
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Produção e contatos

Irineu Gomes Varella

Astrônomo. Diretor do Planetário do Ibirapuera
e da Escola Municipal de Astrofísica
de São Paulo, no período de 1980 a 2002.

Priscila D. C. F. de Oliveira

Coordenadora do Centro de Documentação Técnica e Científica em Astronomia do Planetário e
Escola Municipal de Astrofísica de S Paulo.

Web Designer: Irineu Gomes Varella
Ultima revisão: 01 de Junho de 2009

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